quarta-feira, 21 de maio de 2014

A relação entre o Convento da Serra e o Paço Real da Ribeira de Muge – nos 500 anos da fundação de ambas as casas

Tendo presente que neste ano de 2014 se comemoram os 500 anos da conclusão do Paço Real da Ribeira de Muge, se assinalam os 500 anos da fundação do Convento da Serra, neste mês de maio daremos destaque às relações entre o Paço Real da Ribeira de Muge e o Convento de Nossa Senhora da Serra da Ordem de S. Domingos.

O mais antigo documento que temos conhecimento sobre esta relação data ainda do séc. XVI, cerca de 40 anos depois da fundação de ambas as casas. Com efeito, a 2 de setembro de 1551 António Valente, religioso no Convento da Serra, é nomeado capelão da capela do paço. No entanto, este foi nomeado em substituição de Frei Pedro de Mora, da mesma casa monástica, o que nos leva a concluir que os frades estiveram ligados ao Paço Real da Ribeira de Muge desde muito cedo ou até é possível que tenham sido eles sempre os responsáveis pela capela deste.

Mapa da zona da Ribeira de Muge, com ambas as casas assinaladas. À esquerda o Convento da Serra a azul, e à direita o Paço Real da Ribeira de Muge a vermelho.
(Fonte: IGP - Adaptado)

Todavia, a Capela do Paço Real da Ribeira de Muge apenas é entregue, por alvará, à Ordem de S. Domingos do Convento da Serra em 1560. Seria que a partir daqui um frade deixava de ser nomeado para capelão, passando simplesmente o encargo diretamente para alçada dos frades?

Um alvará de 13 de junho de 1658 menciona que se faz mercê ao Convento da Serra de 25$000 réis para a compra de um macho para que os frades pudessem ir daqui “aos Paços de Muja” dizer missa nos domingos e dias Santos. Sempre que o macho morresse, seriam dados outros 25$000 para compra de outro. Temos registos de tal ter acontecido a 20 de dezembro de 1779, mais de cem anos depois do primeiro documento, o que espelha a relação contínua entre estes dois locais. Já no do final do séc. XVII existem registos que menciona que seria dado ao convento dois moios de cevada, todos os anos, para alimentação do macho, pelo período de 11 anos (entre 1689 e 1699).


Capela do Paço Real da Ribeira de Muge, dedicada a S. João Baptista. Foto de 2005.

Pelos mesmos onze anos, encontramos referências a seis mil reais para as missas na capela do paço, que recebia o Convento da Serra do almoxarifado de Santarém. Após a saída do paço da posse da coroa (em 1790), temos ainda notícia das seguintes menções do início do séc. XIX a ligar os locais em questão, em que foram aludidas as seguintes despesas com a capela do paço:

=> Anos de 1808 e 1809: 12$000 pelo “guisamento” (vinho e alfaias religiosas) da capela.

=> Março de 1826: um “brinde” de $400 reais para o almoxarife de Almeirim passar as certidões da referida capela. 

=> Dezembro de 1826: lembrança de uma despesa de 4$000 reais para o almoxarife passar as certidões da capela.

=> Maio de 1828: pagou o almoxarife da Capela do Paço $060 reais para o novo selo de testação.

=> Junho de 1828: $480 réis para pagamento de uma mulher para varrer a capela.

=> Fevereiro de 1829: despesa sobre uma capa de oleado para levar à capela do Paço.

=> Maio de 1832: $080 reis para que fossem reconhecidos dos atestados pelo Almoxarife do Paço.

Face a todas estas menções, podemos afirmar que foram os frades do Convento da Serra sempre os responsáveis pelos serviços religiosos no Paço Real da Ribeira de Muge. Com efeito, nem com a saída do paço da Fazenda Real, passando para a posse dos Condes da Atalaia esta relação esmoreceu. Face ao ano do último registo – 1832 – podemos supor com uma margem relativamente grande que esta relação apenas terminou com a extinção das ordens religiosas, em 1834, dois anos depois.


Extrato do primeiro mapa de Portugal, na zona da Ribeira de Muge e Rio Tejo, da autoria de Álvaro Seco. (Fonte: BNP Online)

A relação estabelecida entre o Paço Real da Ribeira de Muge e o Convento da Serra é de tal importância que este chega a ser designado por “Paços da Serra”. Com efeito, encontramos essa referência, por exemplo, no documento de nomeação de Duarte Peixoto como almoxarife do paço. Torna-se igualmente interessante de observar que, no primeiro mapa de Portugal, realizado em 1561 por Fernando Álvares Seco, assinala um local grafado como “Paços da Serra”. A sua localização no mapa parece-nos mais coincidente com o convento do que com o paço, pelo que não poderemos afirmar com certeza o que é que o autor pretendeu assinalar aqui, no entanto, conseguimos perceber assim já a forte relação entre estes dois locais, logo no séc. XVI.

No entanto, está de tal forma entrançada a história destes dois locais, que ainda hoje, na memória das pessoas, há quem designe o espaço do paço como “O Convento dos Frades”, assim como chame ao moinho aí existente “O Moinho dos Frades” ou a “Azenha dos Frades”. Apesar de ambos os dados estarem historicamente errados, uma vez que neste espaço não temos notícia alguma de ter funcionado uma casa conventual, assim como o moinho que aqui existe ter apenas cem anos, logo nunca poderia ter pertencido a ordem alguma, verificamos que ficou sobretudo a memória da associação de este espaço aos frades.

Bibliografia e outras fontes:
CUSTÓDIO, Jorge (2008). Almeirim – Cronologia. S/l: Edições Cosmos.

EVANGELISTA, Manuel (2011). Paço dos Negros da Ribeira de Muge: A Tacubis Romana. S/l: Edição do autor.

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