quinta-feira, 5 de junho de 2014

Culto de Nossa Senhora da Serra no Oriente – nos 500 anos da fundação do Convento da Serra

O culto a Nossa Senhora da Serra, cuja casa-mãe era aquela que temos vindo a tratar deste o passado mês de maio, terá sido uma presença constante no dia-a-dia dos portugueses do séc. XVI, com toda a certeza impulsionada pela regular presença da corte em Almeirim. Com efeito, e não esquecendo que à época da sua fundação os Descobrimentos e o comércio com a Índia estavam no seu auge, existiu uma nau que tinha o nome “Nossa Senhora da Serra”.


Afonso de Albuquerque, autor desconhecido (1555/1580). Museu Nacional de Arte Antiga (Fonte: Matriz.Net)

Esta nau, comandada por Afonso de Albuquerque, encalhou nuns baixos ao largo da Ilha de Camarão. Afonso de Albuquerque faz então um voto que, caso se salvasse, edificaria uma igreja com a invocação de Nossa Senhora da Serra, em Goa. Assim acontece, e a dita igreja é mandada levantar em 1513, muito próxima de uma porta da cidade, a “Porta dos Bacais”.

O edifício foi construído virado para noroeste e “tinha seteiras em volta da abóbada e tôrres ameadas para a defesa da porta” (Saldanha, 1990: 146). No seu interior, as abóbadas eram douradas, sendo considerada a “mais rica da cidade” (idem). Ladeada por esferas armilares e com uma inscrição aos pés, estava uma estátua de Afonso de Albuquerque, juntamente com o seu escudo, no frontispício desta igreja.

Proposta de reconstituição da fachada de Nossa Senhora da Serra de Goa.

A construção desta igreja foi acompanhada com 48 lojas junto a uma praça perto da igreja, a que posteriormente se chamou “Praça do Pelourinho”. O objetivo das lojas assentava no sustento da igreja e do sacerdote que aí tinha obrigação de celebrar a missa diária por alma do fundador da igreja, após a sua morte, através de parte do valor das rendas. O remanescente destinado à bolsa órfãos filhos de portugueses e também para remunerar os juízes da cidade, que, de três em três anos, eram responsáveis pelas contas da igreja.

A 16 de dezembro de 1515 Afonso de Albuquerque morre em alto-mar, sendo sepultado nesta igreja, segundo a sua vontade testamentária, sendo aqui o local onde se fizeram as suas cerimónias fúnebres. Ao seu túmulo acorriam os indígenas para pedir proteção da opressão a que muitos os votavam. Este culto conhece o seu fim em 1565, quando os seus restos mortais são transladados para Lisboa.



Estátua de Afonso de Albuquerque, no Museu de Arqueologia de Penjim. Será a mesma estátua a que se refere o autor em questão? Apenas se sabe que esteve numa praça de Penjim. Foto de João Taborda.

Esta igreja é demolida em 1811, quando já se encontrava muito arruinada. Manteve-se em pé apenas o frontispício que também acaba por ser demolido em 1842. Desta feita, o Conde de Antas, então governador, ordenara que a estátua de Afonso Albuquerque, assim como alguns elementos escultóricos fossem transferidos para a praça fronteira ao Quartel de Artilharia de Goa, em Penjim, que entrou em construção em 1843.

Bibliografia:
SALDANHA, Manoel José Gabriel (1990). História de Goa – Parte III: política e arqueológica. S/l: Praça de Água. 

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