sábado, 11 de outubro de 2014

Os Azulejos do Paço Real da Ribeira de Muge – nos 500 anos da sua conclusão

O azulejo é um elemento que nos chega por herança árabe. Surge na segunda metade do séc. XV dois tipos de azulejos, que foram designados por “mudéjares” ou “hispano-mouriscos”, devido à sua origem no Reino de Granada, último reduto árabe na Península Ibérica. Foram produzidos em várias cidades andaluzes, com especial destaque para Sevilha e Málaga. O primeiro tipo designa-se por azulejo de corda seca, em que “os desenhos eram limitados por sulcos preenchidos com uma mistura de óleo de linhaça e manganês que, após a cozedura, funcionavam como uma barreira que impedia a separação das cores” (Santos, 2009: 19). Já nos azulejos de arestas “o isolamento das cores era obtido por arestas salientes, moldadas no próprio barro antes da cozedura” (idem). As primeiras aplicações em Portugal foram feitas no início do séc. XVI, com azulejos hispano-mouriscos importados de Sevilha. A este facto não terá sido estranha a visita de D. Manuel I à Alhambra, em Granada, onde terá contactado com este tipo de revestimento.
 
Azulejo do tipo "Corda Seca" originário do Paço Real da Ribeira de Muge.
Em exposição no Museu Municipal de Almeirim.

Azulejo do tipo "Aresta" originário do Paço Real da Ribeira de Muge.
Em exposição no Museu Municipal de Almeirim.

Sendo construído no início do séc. XVI, foi com toda a certeza profusamente decorado o Paço Real da Ribeira de Muge com estes azulejos. Contudo, não chegaram aos nossos dias. Com efeito, quando Vasconcellos (1926), visita este local relata que já existiam poucos, existindo ainda um banco revestido deles. Levou alguns para o Museu do Carmo, oferta de Manuel Francisco Fidalgo, à época proprietário do paço. Evangelista (2011), alude à possibilidade dos azulejos que se encontram na exposição do Museu Arqueológico do Carmo, identificados com “proveniência desconhecida”, serem originários daqui.




O dito banco que Frazão de Vasconcellos menciona ainda hoje existe, e é o das fotos acima. Está revestido na sua grande maioria por azulejos com um padrão verde, azul e amarelo. Tem outros azulejos que cremos terem-lhe sido adicionados posteriormente. Para além destes, existem ainda mais alguns, muito fragmentados espalhados em alguns bancos exteriores. Da mesma forma, podemos encontrar seis exemplares praticamente intactos na exposição do Museu Municipal de Almeirim.


Banco no complexo das ruínas do Paço que apesar de já praticamente desprovido de azulejos, ainda tem alguns resistentes bocados a cobri-lo, como o do pormenor da segunda imagem. 

Bibliografia: 
EVANGELISTA, Manuel (2011). Paço dos Negros da Ribeira de Muge: A Tacubis Romana. S/l: Edição do autor.
SANTOS, Hugo Miguel Aguiar (2009). Azulejo não é crime! Prova final de licenciatura apresentada ao departamento de Arquitetura da Faculdade de Ciências e Tecnologias da Universidade de Coimbra.
VASCONCELLOS, Frazão de (1926). “O Paço dos Negros da Ribeira de Muge e os seus almoxarifes”, separata da publicação Brasões e Genealogias. Lisboa: Tipografia do Comércio.

http://embuscadopatrimonio.blogspot.pt/2014/04/contemplo-estas-ruinas-seculares-restos.html#gpluscomments
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