segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Como Interpretar e Valorizar o Património - Sessão Técnica na Escola de Hotelaria de Fátima - Parte I

1. O que é o património
Antes de tudo importa perceber a origem do termo “património” para perceber o que quer dizer. “Património” é uma palavra composta, derivada de dois étimos latinos (pater+monium). Pater quer dizer “pais” e monium “herança”. O património quer dizer assim aquilo que provém dos pais, não no sentido da conceção física, mas sim da herança social que recebemos dos nossos antepassados.

Para além disto, importa perceber que o património tem sempre uma dimensão imaterial. Pegando num exemplo concreto – um castelo – este resulta de um amontoado ordeiro de pedras. Contudo, essas pedras têm uma importância, pelo papel que assumiram na defesa de determinada localidade. Contudo, não deixam de ser pedras. É o que está para lá das pedras, ou seja, o papel que assumiu na história, que tornam aquele castelo importante, e é essa sua dimensão – imaterial – que o tornam património.



Quando nasceu a preocupação pela conservação e defesa do património, passou a considerar-se como bem patrimonial os grandes monumentos, associados aos grandes feitos da nação, com um forte valor artístico. Um destes exemplos será o do Mosteiro da Batalha, uma obra-prima do gótico português, associada à Batalha de Aljubarrota (onde se consolidou a independência de Portugal) e onde nasceu a corrente decorativa do início do séc. XVI – o Manuelino. Contudo, num alargamento do conceito de património, passou a considerar-se como centralidade do património a atividade quotidiana do homem. A arte vernácula, ou seja, a produção artesanal de bens, assume aqui um papel preponderante, aliado à forte componente imaterial que os bens têm. São exemplos objetos domésticos ou os próprios “saber-fazer”.

Um bem poderá ser considerado património quando o seu valor simbólico ultrapassar o seu valor de uso e formal, isto é, quando não tiver um “preço”. Quando o seu valor for de tal ordem, que não exista vontade de o alienar e que esse cenário não seja sequer posto em questão.


2. Que tipos de património existem?
Em primeiro lugar, não temos o hábito, por preciosismo académico, utilizar o termo “património cultural”, por considerarmos, a par com alguns investigadores da área, que todo o património tem uma dimensão cultural, pelo que essa mesma designação resultará numa redundância.

O património pode dividir-se em material e imaterial. Contudo, como já referimos, um determinado bem pode ter uma dimensão material e imaterial, sendo esta forma imaterial o que confere a importância a determinado bem. No campo do património material, podemos encontrar, entre outras, as seguintes tipologias de património:

- Industrial (moinhos, lagares, adegas, unidades fabris)
- Militar (fortes, castelos, muralhas)
- Religioso (igrejas, capelas, imagens de santos)
- Artístico (pinturas, arquitetura, esculturas)
- Natural (praias, pegadas de dinossáurios, matas)
- Urbano e Civil (palácios, solares, estátuas, pontes)
- Científico (antigos laboratórios)
- Administrativo e estatal (tribunais, Assembleia da República)
- Arqueológico (ruínas romanas e por definição todo o bem que tem mais de cem anos).

 

De todos estes, o património natural é o único em que não há intervenção do homem, tendo este apenas o papel de o conservar. No que diz respeito ao património imaterial, podemos encontrar as seguintes tipologias:

- Música (fado, fandango, verde-gaio, entre outros)
- Dança (associada à música que se pode dançar – o caso do fandango e do verde-gaio).
- Gastronómico (o património que se destina a ser comido – logo material. Todavia, o património encontra-se na mão do cozinheiro que produz o prato, isto é, no saber fazer).
- Ritos Religiosos (procissões, via-sacra)
- Estórias (contos, vivências dos tempos antepassados, anedotas)
- Lendas.



Da mesma forma que não existe, muitas vezes, uma fronteira entre o património material e imaterial, esta esbate-se ainda mais entre as várias tipologias de património. Com efeito, um mesmo bem – por exemplo os Painéis de S. Vicente de Fora, atribuídos a Nuno Gonçalves – é ao mesmo tempo património religioso (por fazerem parte do retábulo de uma igreja) e artístico (tendo em conta que são uma pintura, expressão da arte de uma época específica). Tendo presente que todo o bem com mais de cem anos é arqueológico por definição, podemos ainda considerar este bem como sendo património arqueológico.


Por esta forma, podemos considerar o património como algo pontuado pela diversidade e pela versatilidade.